Você já se deparou com pacientes cujos padrões parecem se repetir incansavelmente? Aqueles que, apesar dos esforços, voltam aos mesmos desafios? A Terapia do Esquema oferece uma lente poderosa para compreender as raízes profundas desses padrões e, mais importante, como realmente transformá-los.
Ir além dos sintomas e entender a origem das dificuldades é o caminho para intervenções mais eficazes e duradouras. E a psicoeducação é a primeira chave para abrir essa porta – não só para o paciente, mas também para nós, terapeutas!
Na Terapia do Esquema, acreditamos que compreender o “mapa interno” do paciente – seus esquemas, modos e necessidades emocionais – é fundamental. É um trabalho colaborativo, onde o paciente se torna um parceiro ativo na jornada de mudança. E para isso, ele precisa entender o caminho. Mas, antes, você precisa dominar esse mapa.
Imagine a vida como uma linha do tempo. Desde o início, trazemos algo único: nosso temperamento. Ele é como uma “cor” genética que herdamos, influenciando como interagimos com o mundo desde que nascemos. Por que isso importa?
Porque nosso temperamento, ao lado das experiências da infância (principalmente as dolorosas!), molda a formação dos nossos esquemas. Como Young, Klosko e Weishaar (2008) nos ensinam, diferentes temperamentos reagem de forma seletiva a diferentes situações.
Seguindo nessa linha da vida, passamos pela infância e adolescência, fases cruciais onde muitas das nossas primeiras “marcas” são formadas.
Alguns dos esquemas mais profundos, como os de abandono/instabilidade, desconfiança/abuso, privação emocional, defectividade/vergonha e isolamento social, geralmente se desenvolvem bem cedo, antes mesmo de termos linguagem para nomear o que sentimos.
Nessa fase pré-verbal, as experiências ficam gravadas como memórias inconscientes e, principalmente, sensações no corpo. É por isso que, muitas vezes, um paciente não se lembra de um evento específico da infância ou não consegue identificar uma cognição clara, mas sente a emoção ou a sensação física associada àquela experiência difícil.
Guarda memórias inconscientes e está ligada às emoções primárias – nosso sistema de alarme que nos avisa sobre ameaças.
Relacionado às memórias conscientes, aquelas que conseguimos acessar e narrar.
Porque, como espécie, nascemos totalmente dependentes e precisamos que nossas necessidades básicas emocionais sejam atendidas para sobreviver e nos desenvolver de forma saudável – física, emocional e psicologicamente. Essas necessidades são universais: empatia, segurança, afeto, expressão das emoções, espontaneidade e lazer, validação, autonomia e limites.
Quando um bebê tem suas necessidades atendidas de forma “suficientemente boa” (o que varia dependendo do temperamento dele e da capacidade dos cuidadores, que muitas vezes repetem padrões transgeracionais), ele se sente seguro. Quando essas necessidades não são atendidas, isso é vivido como uma ameaça.
Essa sensação de ameaça é imediatamente registrada na amígdala. Diante dela, disparamos nossas defesas. Pense nas reações instintivas: lutar, fugir ou paralisar.
Esses estilos de enfrentamento, desenvolvidos em resposta às necessidades básicas não atendidas (as “crianças feridas” ou “vulneráveis” em nossa memória emocional), dão origem aos Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs).
Desde o nascimento, cada experiência de necessidade atendida (ou não) fica registrada. Quando as necessidades não são atendidas adequadamente, os EIDs começam a se formar.
Os esquemas desenvolvidos na primeira infância (relacionados à família nuclear) são os esquemas primários. A partir da infância e adolescência, surgem os esquemas secundários, influenciados por pares, escola, comunidade, figuras de autoridade, e que muitas vezes funcionam como defesas para os esquemas primários.
A tarefa do desenvolvimento saudável é buscar um equilíbrio entre a conexão (apego seguro) e a autonomia (explorar o mundo, buscar interesses próprios). Nossos “sistemas de alerta” nos impulsionam a buscar segurança (figura de apego) quando ameaçados e autonomia quando nos sentimos seguros.
No entanto, a cada nova situação que “aciona” uma experiência de necessidade não atendida, os esquemas desadaptativos são reforçados, tornando-se padrões cada vez mais arraigados.