Estresse de minorias e o modo crítico (sociocultural opressor) internalizado em minorias sexuais e de gênero

Estresse de minorias e o modo crítico (sociocultural opressor) internalizado em minorias sexuais e de gênero

Autores Bruno Luiz Avelino Cardoso, Kelly Paim, Ramiro Figueiredo Catelan e Ethan H. Liebros

Resumo

Vários resultados psicológicos adversos entre minorias sexuais e de gênero (MSG) são bem documentados na literatura. Apesar do surgimento desses dados, as MSG ainda recebem pouca atenção em relação às intervenções psicológicas, que incluem a Terapia do Esquema (TE), uma abordagem integrativa de psicoterapia emergente. Embora revisões tenham sido propostas para expandir a compreensão da TE sobre necessidades emocionais, esquemas, domínios e modos esquemáticos, para nós, há uma lacuna no que diz respeito às MSG. Por isso, o objetivo principal deste ensaio teórico é propor uma intervenção específica da TE para as MSG, abordando aspectos socioculturais visando promover um funcionamento saudável que possa interpor a opressão e os preconceitos internalizados. Para isso, apresentaremos (a) o referencial teórico do estresse minoritário; (b) o modelo da TE aplicado a clientes MSG; e (c) algumas estratégias de intervenção da TE para clientes MSG, destacando a necessidade de fortalecer o modo de esquemático saudável dos indivíduos. Vale ressaltar que, apesar da relevância do trabalho clínico, existem variáveis sociais que apoiam e mantêm estruturas desadaptativas. Esperamos que as intervenções terapêuticas propostas promovam o diálogo sobre esse assunto e incentivem mudanças positivas na sociedade.

A conexão com um grupo social é um dos nossos mecanismos de sobrevivência mais hereditários como espécie. Ao construir relacionamentos entre pares, os indivíduos começam a entender as regras de um determinado contexto e a se identificar como parte de uma comunidade. Em algumas culturas, afastar-se de um padrão de grupo bem estabelecido pode levar à exclusão social e a sensações esquemáticas negativas. Por exemplo, em alguns contextos religiosos, onde existem normas heterossexistas rígidas, certas pessoas são rotuladas como “erradas” ou “pecadoras” por terem orientações não heterossexuais. Experimentar essas microagressões invalida as identidades dos indivíduos à medida que gradualmente internalizam os preconceitos sociais (Lomash et al., 2018).

Por décadas, a cultura ocidental tem patologizado a existência de minorias sexuais e de gênero (SGM), julgando, rotulando e confrontando quaisquer expressões e identidades que estejam fora do padrão heteronormativo, ou seja, a ideia de que pessoas heterossexuais são superiores às não heterossexuais. Mitos culturais sobre “homens e mulheres de verdade” ainda proliferam e são predominantes em muitos ambientes. Após os eventos ligados aos protestos de Stonewall em 1969, nos quais a comunidade MSG da cidade de Nova York se rebelou contra a intolerância e o preconceito direcionados a eles, movimentos sociais e profissionais nos campos da Psicologia e Psiquiatria começaram a pressionar a Associação Psiquiátrica Americana para remover a homossexualidade do DSM, decisão que se concretizou em 1973 (Drescher, 2015). No entanto, o diagnóstico de homossexualidade só foi retirado da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde na década de 1990, após uma pressão crescente do movimento lésbico, gays e bissexual (LGB) (Organização Mundial da Saúde, 1992).

Vários resultados psicológicos adversos entre as MSG são bem documentados na literatura. Uma metanálise de 54 estudos sobre automutilação não suicida em pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) indicaram uma alta prevalência desse comportamento ao longo da vida tanto em minorias sexuais (29,68%) quanto em minorias de gênero (46,65%). Em contraste, a prevalência entre pessoas heterossexuais/cisgêneros foi de 14,57%, destacando uma disparidade significativa. A associação entre pertencer a uma minoria sexual – quando esta variável foi isolada ou combinada com pertencer a uma minoria de gênero – e o comportamento de automutilação foi significativa, sugerindo que ser MSG é um fator de risco para autoagressão (Liu et al., 2019).

Quando comparados com jovens heterossexuais, os jovens de minorias sexuais têm 2,94 vezes mais chances de apresentar sintomas depressivos ou transtornos depressivos, de acordo com outra metanálise que analisou dados de 23 estudos populacionais (Lucassen et al., 2017). O risco estimado de suicídio entre jovens de minorias sexuais pode ser até 3,5 vezes maior quando comparado a seus pares heterossexuais (Di Giacomo et al., 2018).

Fatores semelhantes são encontrados entre MSG mais velhos, cuja prevalência de sintomas depressivos ao longo da vida varia de 24% (Fredriksen-Goldsen, 2011) a 47,9% (Hoy-Ellis & Fredriksen-Goldsen,2017). Quando comparados aos indivíduos heterossexuais, os não heterossexuais com mais de 50 anos têm 4,5 vezes mais chances de apresentar ideação suicida. Entre aqueles que têm ideação suicida, pessoas não heterossexuais têm 17,2 vezes mais chances de concretizar seus planos suicidas do que as pessoas heterossexuais (Capistrant & Nakash, 2019).

Outras características de vulnerabilidade psicológica entre as MSG incluem piores sintomas de ansiedade (Björkenstam et al., 2017), transtornos de estresse pós-traumático (Reisner et al., 2016), uso problemático de álcool (Slater et al., 2017) e uso excessivo de outras substâncias (Dyar et al., 2019). A população transgênero parece ser desproporcionalmente afetada por resultados psicológicos negativos, conforme sugerido por um estudo brasileiro recente, no qual 67,20% dos participantes apresentaram sintomas depressivos, enquanto 67,72% relataram ideação suicida e outros 43,12% tentaram suicídio pelo menos uma vez (Chinazzo et al., 2021).

Apesar do surgimento desses dados, as MSG ainda recebem pouca atenção quanto aos protocolos de intervenção psicológica. Ainda existem vários mitos, estereótipos e distorções sobre a população LGBT em ambientes terapêuticos, o que pode levar a diferentes formas de terapia de conversão/correção.¹ Um estudo brasileiro constatou que 29,48% dos profissionais exibiam atitudes corretivas quando seus clientes pediam e 12,43% (n = 86) o faziam espontaneamente (Vezzosi et al., ,2019). Um estudo canadense (n = 9214) descobriu que 21% dos entrevistados disseram que uma pessoa em uma posição de autoridade os incentivou a mudar sua identidade de gênero ou orientação sexual; 10% dos entrevistados haviam passado por práticas de terapia de conversão (CTP), sendo as taxas mais altas encontradas entre os entrevistados não binários (20%).

Notavelmente, 72% dos 910 entrevistados que experimentaram CTP compareceram pela primeira vez a uma sessão antes dos 20 anos de idade, sendo os ambientes religiosos/de fé o local mais frequente para pedir ajuda (Salway et al., 2021). Estudos recentes como esses indicam que ainda há muito a ser feito, principalmente no que diz respeito ao treinamento de clínicos para trabalhar adequadamente com MSG. Esses profissionais devem seguir uma série de diretrizes de apoio, afirmativas, empáticas e inclusivas para aprimorar suas habilidades e evitar intervenções iatrogênicas ou prejudiciais com seus clientes (American Psychological Association, 2011; Pachankis, 2018).

A Terapia do Esquema (TE) é um modelo de psicoterapia criado por Young e colegas (Young, 1990; Young et al., 2003) com o objetivo de ampliar a Terapia Cognitivo-Comportamental tradicional. Foi inicialmente desenvolvida para tratar pessoas com transtornos de personalidade (Young, 1990; Young & Behary, 1998). 

¹ Neste estudo, terapias corretivas ou de conversão são compreendidas como uma tentativa de terapia, seja de forma sutil ou explícita, de modificar a orientação sexual de uma pessoa (Drescher et al., 2016). 

No entanto, a TE tem se mostrado aplicável a uma grande variedade de demandas clínicas, incluindo outros transtornos mentais (Renner et al., 2016), questões de casal (Simeone-DiFrancesco et al., 2015; Paim & Cardoso,2019a) e necessidades de crianças e adolescentes (Loose et al., 2020).

De acordo com o modelo teórico da TE, os esquemas iniciais desadaptativos (EIDs) são “padrões emocionais e cognitivos autodestrutivos que começam cedo em nosso desenvolvimento e se repetem ao longo da vida” (Young et al., 2003, p. 7). Esses EIDs se originam quando as necessidades emocionais básicas não são atendidas ao longo do desenvolvimento de uma pessoa (Young et al., 2003). De acordo com essa descoberta, alguns pesquisadores propõem que os EIDs conferem uma vantagem evolutiva. Destacam-se três estilos específicos de enfrentamento evolutivo para lidar com ameaças potenciais: lutar (hipercompensação) contra o esquema; evitar as sensações que ativam o esquema; e/ou render-se à situação atual (Young et al., 2003).

Dentro do modelo da TE, estão os modos esquemáticos, que são a ativação simultânea de um conjunto de esquemas, estados emocionais característicos, sensações corporais e estilos de enfrentamento desencadeados por situações específicas (Arntz et al., 2021; Young e outros, 2003). Trabalhar com os modos tem sido um recurso importante para as intervenções da TE, o que pode trazer à tona os diferentes componentes do self de um indivíduo, facilitando a adesão ao processo terapêutico. Trabalhar com modos ajuda a aumentar os resultados clínicos, especialmente entre aqueles que tiveram menos sucesso em encontrar uma opção de tratamento eficaz e duradoura (Rafaeli et al., 2015).

Ainda que tenham sido propostas revisões teóricas para explicar questões como necessidades emocionais, esquemas, domínios de esquema e modos esquemáticos (Arntz et al., 2021; Bach et al., 2017), os modelos da TE ainda não abordam adequadamente as características únicas das MSG.  Embora já se tenha compreendido há muito tempo que os indivíduos internalizam normas culturais, sociais, religiosas, de grupo de pares e familiares, ainda falta na literatura atual um modelo da TE para clientes MSG que leve em consideração esses fatores. O objetivo principal deste ensaio teórico é propor uma intervenção específica da TE para MSG, abordando aspectos socioculturais visando promover um funcionamento saudável que possa interpor a opressão e os preconceitos internalizados. Para tanto, apresentaremos (a) o referencial teórico do estresse minoritário; (b) o modelo da TE aplicado a clientes MSG; e (c) algumas estratégias de intervenção da TE para clientes MSG, destacando a necessidade de fortalecer o modo esquemático saudável dos indivíduos.

estresse minoria insere educação

Estresse de minorias

A literatura tem associado resultados psicológicos negativos entre as MSG e a experiências generalizadas de preconceito, que podem ser definidas como uma constelação de atitudes hostis em relação a pessoas que pertencem a determinados grupos sociais, baseadas em concepções negativas equivocadas sobre esses grupos (Myers, 2014). O preconceito possui (1) componentes cognitivos (avaliações, pensamentos e interpretações negativas e estereotipadas) que desencadeiam (2) reações emocionais (principalmente raiva e nojo), que levam a (3) repercussões comportamentais (tendência a atacar, assediar e violar). De forma mais ampla, o preconceito social (por exemplo, discursos e práticas institucionais hostis) aumenta o preconceito interpessoal (por exemplo, relacionamentos interpessoais), permitindo que as vítimas experimentem sofrimento psicológico (Herek & McLemore, 2013). O preconceito pode ser direcionado à expressão de gênero, que é visível aos agressores, independentemente da identidade de gênero ou orientação sexual de uma pessoa. Em outras palavras, não é necessário que a pessoa mencione ou verbalize suas vivências internas para ser alvo de violência; independentemente de suas características físicas e comportamentais não normativas, elas ainda podem ser vitimizadas.

O estresse de minorias (EM) é um modelo baseado em evidências que ajuda a explicar os impactos longitudinais da exposição crônica ao preconceito e condições ambientais adversas na saúde mental dos indivíduos MSG (Meyer,2003). EM tem três princípios principais:

  1. O status de minoria aumenta a exposição a estressores distais.
  2. Estressores distais levam ao desenvolvimento de estressores proximais.
  3. A associação entre estressores distais e proximais leva a resultados de saúde negativos entre as minorias

 

Estressores distais (ED) são experiências externas de discriminação, que incluem rejeição familiar e social; violência física; abuso sexual; agressões verbais; maus tratos em ambientes de saúde; discriminação no mercado de trabalho; bullying na escola; exposição ao discursos políticos discriminatórios; e leis restritivas à expressão sexual e de gênero. Os estressores proximais (EP) são experiências internas decorrentes da exposição crônica à ED. Alguns exemplos incluem preconceito internalizado (pensamentos negativos sobre o próprio gênero ou sexualidade); a necessidade de esconder o próprio gênero ou sexualidade (para preservar a integridade física e psicológica); e sensibilidade à rejeição (reatividade emocional elevada face à percepção de antecipação/expectativa de discriminação ou rejeição). Existem EP específicos para pessoas transexuais, como disforia de gênero (efeito dos ED, não apenas relacionado ao desconforto biológico intrínseco); preocupações com “passabilidade” ou conformidade visual (desejo de se parecer visualmente com pessoas cisgênero ou não se parecer com uma pessoa transgênero); e ruminação corporal (atenção excessivamente focada no desconforto causado por características biológicas inatas).

Estratégias da TE aplicadas a clientes que pertencem as MSG

As necessidades emocionais básicas não atendidas podem ativar modos esquemáticos e esquemas específicos, levando o processamento emocional de MSG a ser mais rígido e influenciando regularmente resultados negativos na saúde mental e física. Young et al. (2003) descreveu cinco necessidades humanas básicas ao longo do desenvolvimento: (a) conexão, (b) liberdade de expressão e validação emocional, (c) autonomia e senso de competência, (d) espontaneidade e lazer e (e) limitações realistas e autocontrole. Arntz et al. (2021), com base em estudos de etologia e em sua experiência clínica, revisaram as necessidades propostas por Young et al. (2003) e incluíram outras necessidades humanas essenciais, como autocoerência e senso de justiça. Quando não apoiadas por famílias reparadoras e afirmativas, as MSG podem sofrer várias frustrações únicas na satisfação dessas necessidades (veja alguns exemplos na Tabela 1):

Eventos aversivos, conforme mostrado na Tabela 1, acontecem não apenas no ambiente familiar, mas também ocorrem em ambientes externos. As experiências negativas regularmente vivenciadas pelas MSG baseiam-se em regras e normas socioculturais opressivas. Para que as pessoas se desenvolvam plenamente, é imperativo respeitar a sexualidade e o gênero, propiciando um ambiente acolhedor e afirmativo. O não atendimento dessas necessidades pode desencadear uma série de esquemas, cujo conteúdo específico é propício à não afirmação da identidade de gênero e orientação sexual, como se vê a seguir (Tabela 2):

Além dos EIDs apresentados na Tabela 2, há um conjunto de características emocionais únicas das MSG, especialmente quando se encontram em ambientes nos quais não se sentem afirmadas. Rejeição, medo, vergonha, ansiedade, tristeza, angústia, raiva e inadequação são alguns exemplos comumente relatados no trabalho clínico com essa população.

O modo crítico internalizado (sociocultural opressor) é composto por uma série de esquemas internalizados pelo ambiente, estados emocionais (incluindo estressores) e estratégias de enfrentamento desadaptativas (ver Figura 1). Esses padrões rígidos interferem na maneira como alguém pensa, sente e se comporta quando os gatilhos são ativados e as necessidades básicas não são atendidas. Esse modo esquemático é baseado na internalização de preconceito/estigma, sentimentos (experiências emocionais específicas) e comportamentos (estratégias de enfrentamento para lidar com estressores específicos das MSG).

Quanto mais próximas as MSG estiverem da comunidade, mais orgulhosas elas se sentirão por serem quem são e melhor entenderão que não há nada de errado em vivenciar sua orientação sexual e identidade de gênero (fatores de resiliência). Isso torna mais provável que ocorram resultados positivos de saúde. Por outro lado, um contexto não afirmativo e com funcionamento baseado no modo crítico (sociocultural opressor) internalizado, pode levar as pessoas a problemas de saúde física e mental.

Estratégias de intervenção

A literatura sobre a TE ainda carece de estratégias de intervenção para clientes MSG. No entanto, pode-se presumir que existam técnicas baseadas na TE que possam ser adaptadas e aplicadas a essa população. A seguir, apresentaremos algumas estratégias que podem ser utilizadas com as MSG sob a ótica da TE.

Trabalhar com os Modos Esquemáticos

Trabalhar com os modos esquemáticos na TE provou ser um recurso versátil (Flanagan et al., 2020). É uma das principais ferramentas clínicas da ME (Young et al., 2003), que também pode ser adaptada para trabalhar com o modo crítico (sociocultural opressivo) internalizado e o modo adulto saudável (afirmativo). Além desses modos, outros modos esquemáticos mencionados anteriormente na literatura (Young et al., 2007) também podem ser ativados no processo terapêutico com clientes MSG. Cada modo pode ser abordado por abordagens terapêuticas específicas.

Tanto o modo da criança vulnerável (por exemplo, relacionado à solidão, injustiça, rejeição, abuso, confusão) quanto os modos da criança externalizante (por exemplo, envolver-se em atividades sexuais de forma impulsiva na tentativa de enfrentar o modo crítico internalizado e encontrar reconhecimento e amor) podem ser trabalhados por meio do processo terapêutico. Nesses momentos, o foco terapêutico será compreender e validar as necessidades emocionais não atendidas da criança e, em seguida, supri-las com reparentalização limitada (Young et al., 2003).

Por exemplo: (a) validar a necessidade emocional não atendida de compreensão e empatia por meio de um relacionamento terapêutico: “Davis, eu entendo que é realmente difícil lidar com esses sentimentos e pensamentos sobre você mesmo. Gostaria que soubesse que pode contar comigo. Você não está sozinho!”, (b) reparentalizar o modo criança vulnerável por meio de imaginação mental: Lucy sofria bullying na escola por causa de sua identidade de gênero. O terapeuta convida Lucy para um exercício experimental de imagens mentais. Primeiro, Lucy é solicitada a criar um lugar seguro pessoal; depois disso, o terapeuta guia Lucy para visitar a escola. Na cena traumática (quando seus colegas estão zombando da identidade de gênero de Lucy), eles pedem a Lucy que entre mentalmente na situação. Após a permissão de Lucy para integrar a imagem, o terapeuta defende Lucy e afirma sua identidade de gênero, dizendo que não há nada de errado com sua identidade e que o comportamento de seus colegas é errado e discriminatório.

Estratégias de enfrentamento desadaptativas devem ser identificadas e, então, confrontadas empaticamente. Em alguns casos, o modo de capitulador complacente pode estar presente; se isso estiver ocorrendo, o terapeuta deve ajudar o cliente a entender que sua passividade e subjugação foram necessárias no passado para evitar ataques, violência e rejeição, mas agora é necessária uma postura afirmativa para se aproximar de suas necessidades emocionais. Estratégias de enfrentamento desadaptativas manterão as pessoas afastadas de relacionamentos reparentalizadores; é um objetivo terapêutico fazê-los perder força ao longo do processo. Se o modo internalizado crítico/punitivo dos pais também estiver presente, ele deve ser enfrentado (Paim & Cardoso,2019b).

Lutando contra o Modo Crítico Interior (Sociocultural Opressor)

opressao externa

Empoderar o cliente para que ele possa enfrentar o preconceito e a discriminação quando necessário é uma das estratégias afirmativas de MSG recomendadas pela American Psychological Association (2011). O modo crítico internalizado (sociocultural opressor) faz com que as pessoas assumam a experiência opressiva como se fosse um problema com elas mesmas, o que pode levar ao sofrimento. Deve-se identificar declarações e julgamentos específicos internalizados do ambiente para analisar como eles atualmente refletem em suas vidas, a fim de confrontar esse modo esquemático. Estabelecer uma separação entre a pessoa e seu modo é fundamental para que o cliente possa extravasar seu ressentimento e raiva. Farrel e Shaw (2020) sugerem que o cliente desenhe ou pinte em uma folha de papel seus modos internalizados; ao fazer isso, eles podem visualizar o modo externamente, destacando sua dissociação da pessoa. Outra opção é colocar o modo em uma cadeira vazia. Em seguida, o cliente é encorajado a assumir uma postura contra suas afirmações negativas internalizadas, apresentando evidências contrárias a essas internalizações desadaptativas, e a se posicionar de forma firme, assertiva e de acordo com suas necessidades. É provável que o cliente tenha dificuldade em assumir esse tipo de postura; se assim for, o terapeuta deve ser o modelo saudável nesse processo, indo contra a opressão, afirmando a orientação sexual e/ou identidade de gênero de seu cliente.

Fortalecendo o Modo Saudável

O modo adulto saudável (afirmativo) consiste no posicionamento do cliente de forma a manter a autoaceitação e afirmar sua orientação sexual e/ou identidade de gênero. O terapeuta pode identificar os momentos em que esse modo está presente e incentivá-lo como proteção à saúde mental do cliente. Quando no modo saudável, os esquemas positivos são ativados, permitindo que a aceitação e a espontaneidade sejam estimuladas sem julgamentos negativos ou internalizados.

Reparentalização Limitada Focada na Afirmação

A estratégia de reparentalização limitada visa atender parcialmente às necessidades do cliente. Como mostrado na Tabela 1, existem várias experiências aversivas comuns entre as MSG. O papel do terapeuta é atender às necessidades emocionais básicas do cliente, oferecendo um ambiente acolhedor e afirmativo no qual ele possa se sentir livre para expressar sua verdadeira identidade. O terapeuta também deve adotar uma postura encorajadora, demonstrando apoio emocional e oferecendo afeto e aceitação. Técnicas de imagens mentais também podem ser usadas; neste momento, o terapeuta pode inserir a imagem correspondente às necessidades não atendidas do cliente e se oferecer para supri-las parcialmente (Young et al., 2003).

Carta à Sociedade

Escrever uma carta é uma técnica tradicional da TE (Young & Klosko, 2020). No entanto, ao se adaptar às MSG, seu uso deve ser estendido para além dos pais, cuidadores, amigos e familiares. O terapeuta deve instruir o cliente a escrever diretamente para seu contexto sociocultural. Nesse momento, a pessoa pode expressar suas necessidades de aceitação em relação à sua identidade de gênero/orientação sexual, bem como liberar toda a mágoa e raiva que sentiu ao longo da vida.

O seguinte é um exemplo da prática clínica: “Olá, Sociedade. Eu nasci em você e desde cedo percebi que não sou aceito por ser quem sou. Tenho encontrado dificuldades em lidar comigo mesmo, pois a cada passo que dou, sou visto como errado, inadequado e pecador […]. Gostaria que você me aceitasse como eu sou, ou pelo menos respeitasse minhas experiências. Viver neste ambiente que não me aceita tem me causado muito sofrimento. Acho que mereço ser amado e amar, mas às vezes acredito que as formas como quero amar e ser amado são erros terríveis – o que me faz sentir vergonha de mim mesmo. Isso é o que eu aprendi de você. […]. Preciso que você não me mate por ser quem sou, que respeite as relações que decido ter e que entenda que tudo o que quero é ser feliz e viver minha vida sem sofrer tanto quanto agora.”[…].

Trabalho de Cadeira

O trabalho com cadeiras tem sido usado como intervenção para uma série de clientes (Kellogg, 2012), incluindo MSG (Boccone, 2016; Herbitter & Levitt, 2021). Consiste em possibilitar o diálogo entre dois modos: (a) modo crítico internalizado (sociocultural opressor) e (b) modo saudável (afirmativo), conforme ilustrado na Figura 2.

A Figura 2 apresenta o funcionamento de cada modo (“modo crítico internalizado” versus “modo saudável”), com alguns exemplos específicos. Deve-se notar que o processamento cognitivo, emocional e comportamental de cada pessoa pode ser diferente. No entanto, esses modos podem funcionar de maneira semelhante. Ao apresentar modos desadaptativos, o cliente internaliza a opressão, os julgamentos e o preconceito de sua cultura/sociedade. Em contraste, os modos adaptativos promovem a afirmação, a aceitação da própria identidade e um senso de pertencimento.

Um dos principais objetivos terapêuticos das intervenções da TE adaptadas às MSG é fortalecer o modo saudável (afirmativo) e enfraquecer o funcionamento negativo do modo crítico internalizado (sociocultural opressor). O terapeuta precisa ajudar o cliente a promover seu modo saudável de se tornar mais confiante e assertivo. Além disso, o terapeuta deve sempre encerrar o exercício quando o cliente estiver sentado na cadeira de modo saudável (afirmativo) para garantir que a conversa termine de forma positiva.

Considerações Finais

O objetivo deste artigo foi propor algumas intervenções específicas da TE para clientes MSG, abordando aspectos socioculturais e promovendo um funcionamento saudável para enfrentar a opressão e o preconceito internalizado. Reconhecemos as limitações desta proposição teórica e a falta de suporte empírico específico para muitas das intervenções descritas. Encorajamos fortemente os pesquisadores a desenvolver, testar e publicar adaptações da TE para MSG e outras minorias, a fim de fornecer intervenções afirmativas baseadas em evidências.

Apesar do trabalho clínico ser relevante, as estruturas desadaptativas são suportadas por variáveis de nível não individual. Portanto, é importante reconhecer que alguns sofrimentos podem ser tratados em sessões de terapia individual, enquanto outros problemas são reforçados socialmente. As intervenções terapêuticas precisam ir além do ambiente clínico para promover o diálogo sobre as necessidades únicas de MSG e encorajar mudanças sociais positivas para essas populações.

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Nota do Editor A Springer Nature mantém-se neutra em relação a reivindicações de jurisdição em mapas publicados e afiliações institucionais.

*Tradução realizada pela equipe Insere.

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